Ronaldo Dimas foi o nome mais votado da cidade e ficou fora do Senado. Alexandre Guimarães, filho da terra, chegou lá com apenas um em cada dez votos vindos de casa
Por Geovane Oliveira | Portal O Melhor da Amazônia
Na eleição de domingo (4), Araguaína viveu um paradoxo pouco comentado. A cidade deu sua preferência a um candidato ao Senado que não se elegeu e relegou ao terceiro lugar o araguainense que conquistou a vaga. O resultado mostra que o voto da segunda maior cidade do Tocantins tem peso, mas não decide sozinho as disputas estaduais.
O favorito de casa ficou de fora
Os números da Justiça Eleitoral não deixam dúvida sobre quem Araguaína queria em Brasília. O ex-prefeito Ronaldo Dimas recebeu 42.269 votos na cidade, mais que qualquer outro candidato ao Senado no município. Recebeu também mais votos que os dois candidatos a governador: Vicentinho Júnior (PSDB), vencedor local, somou 39.778, e Professora Dorinha (União Brasil), 37.287.
É um sinal de que o voto em Dimas foi além das alianças da campanha. Ex-prefeito por dois mandatos, ele colheu na cidade o reconhecimento por obras que mudaram a paisagem urbana, como a Via Lago. Fora de Araguaína, porém, esse capital não se repetiu na mesma proporção, e Dimas ficou sem a vaga.
O senador eleito com pouco voto de casa
O outro lado do paradoxo é Alexandre Guimarães (MDB). Natural de Araguaína, ele foi eleito senador com 316.786 votos em todo o estado, mas ficou em terceiro na própria cidade, com 32.663. Ficou atrás de Dimas por 9.606 votos e de Eduardo Gomes (PL), reeleito senador, por 6.686.
Pelas contas desta reportagem, apenas 10,3% da votação total de Alexandre veio de Araguaína. Isso indica que a eleição dele foi construída no interior do estado, na aliança com Vicentinho Júnior e Amélio Cayres, e não em seu reduto de origem.
O dado ajuda a explicar o novo momento político da cidade. Alexandre já esteve ao lado do prefeito Wagner Rodrigues (União Brasil): em 2024, compôs a chapa que o reelegeu e indicou o irmão, Israel Guimarães, para vice-prefeito. Desde então, os grupos se distanciaram. Agora, Araguaína passa a ter um senador com oito anos de mandato, eleito com força política conquistada fora da cidade e sem compromisso com o grupo que a governa.
A escalada de Lucas Campelo
Se a disputa ao Senado mostrou os limites do voto local, a eleição para deputado federal mostrou sua força. Lucas Campelo (Republicanos), de 34 anos, teve 2.670 votos na primeira eleição, em 2024, quando foi o vereador mais votado da cidade. Neste domingo, chegou a 85.376 votos no estado.
O crescimento é de quase 32 vezes em dois anos. Ele alcançou a terceira maior votação do Tocantins para a Câmara dos Deputados e a maior já registrada para o cargo em Araguaína. Diferentemente de Alexandre, Campelo foi eleito a partir de casa, sem o apoio do prefeito, que trabalhou pela reeleição de Tiago Dimas.
O mesmo movimento apareceu na Assembleia Legislativa. Gipão (PL) saiu da faixa de 8 mil votos, em 2022, para 21.469 neste ano, mais que o dobro, e foi o deputado estadual mais votado da cidade. Somados os votos dos quatro deputados estaduais ligados a Araguaína, a cidade concentrou 71.308 votos em sua bancada:
- Gipão: 21.469
- Marcus Marcelo (PL): 20.354
- Jorge Frederico (PSDB): 19.752
- Marcos Duarte (PRD): 9.733
O que o paradoxo revela
Lidos em conjunto, os resultados sugerem um eleitor que vota com critérios próprios em cada cargo. Ele premia trajetórias locais, como as de Dimas, Campelo e Gipão. Ao mesmo tempo, não segue automaticamente as indicações de quem governa a cidade, como mostra a vitória de Vicentinho sobre a candidata apoiada pelo prefeito.
Para 2028, quando Wagner não poderá concorrer à reeleição, o recado é que nenhum grupo terá o eleitorado garantido de antemão. A cidade terá um senador eleito de fora para dentro, um deputado federal eleito de dentro para fora e uma bancada estadual distribuída em campos diferentes.
O próximo teste é o segundo turno, em 25 de outubro, quando Araguaína volta às urnas para escolher entre Dorinha e Vicentinho.



