Círio de Nazaré 2014: Fé e devoção enchem as ruas de Belém no segundo domingo de outubro

A procissão católica de 2 milhões de pessoas é também Patrimônio Imaterial da Humanidade

capture-20141012-140913Na manhã deste domingo, 12 de outubro, Belém amanhecerá em Festa. A partir das 06h30, milhares de devotos percorrerão algumas das principais ruas da cidade para acompanhar a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré na 222ª edição do Círio de Nazaré.

A concentração da maior procissão católica do mundo inicia às 05h com Missa celebrada pelo Arcebispo Metropolitano de Belém, Dom Alberto Taveira, em frente à Igreja da Sé, no bairro da Cidade Velha. A celebração conta também com a participação dos Arcebispos Auxiliares, Dom Teodoro Mendes, Dom Irineu Roman e vários bispos, padres e diáconos.

Ao final da Missa, haverá a bênção com a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré e em seguida ela será colocada na Berlinda que, este ano, tem a decoração assinada por Gilmar Cosme e iluminação com fibra ótica projetada por Thaiza Dias.

Há alguns metros dali, mais de 7.000 romeiros já estão posicionados junto à corda, um dos principais símbolos da Festa de Nazaré, com a missão de puxar a Berlinda para que a procissão possa fluir. Para muitos, o ato de puxar a Berlinda é uma das maiores demonstrações de fé e gratidão por graças que foram alcançadas pela intercessão de Maria Santíssima. Mais a frente, 13 carros, além da Berlinda, acompanharão a Romaria recolhendo os objetos de promessa, são os chamados ex-votos. Os veículos, também chamados Carros de Promessa são conduzidos por alunos voluntários de várias escolas da capital e membros da Diretoria da Festa de Nazaré que ajudam a recolher os itens de promessas.

Durante o trajeto de aproximadamente 3,6 km, os devotos aproveitam para prestar diversas homenagens à Padroeira dos paraenses. Estudos conjuntos da Polícia Militar, Diretoria da Festa de Nazaré e DIEESE/PA apontam a participação de cerca de 2 milhões de pessoas na grande procissão. Um verdadeiro espetáculo de fé em homenagem a Mãe de Jesus.

O Círio 2013 em números

De acordo com estudos do DIEESE/PA e SETUR/PARATUR, são esperados cerca de 82 mil turistas, com uma previsão de gastos de aproximadamente U$ 31 milhões de dólares (cerca de R$ 75 milhões de reais). Outro estudo conjunto do DIEESE/PA e Diretoria da Fest mostra ainda que o Círio deste ano terá um custo de aproximadamente R$ 3,1 milhões de reais. Estima-se também que o impacto na economia paraense, com o efeito Círio 2014, alcance quase R$ 950 milhões de reais, considerando o envolvimento de todos os setores econômicos do Estado. Principalmente o setor serviço, indústria, comércio e a agropecuária.

Patrimônio Imaterial da Humanidade:
No último dia 07 de outubro, durante a abertura oficial do Círio 2014, os realizadores do Círio de Nazaré receberam da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade. A Festa de Nossa Senhora de Nazaré foi inscrita na lista da UNESCO em dezembro de 2013, contribuindo para a visibilidade aos patrimônios culturais imateriais do mundo inteiro. O Círio de Nazaré foi o primeiro bem cultural paraense inscrito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Livro de Registro das Celebrações como Patrimônio Cultural do Brasil.

Corda – A Corda foi inserida no Círio em 1855, quando, em decorrência das fortes chuvas, a feira do Ver-o-Peso ficava inundada. A solução foi atar cordas a fim de que os romeiros pudessem desatolar a Berlinda, que até então era conduzida por tração animal, para agilizar a romaria. A Corda incorporou-se de tal forma à procissão que foi introduzida oficialmente em 1885 e tornou-se um dos mais fortes elementos do Círio, representando a intensidade da devoção mariana e o amor sem medidas à Padroeira dos Paraenses.

Em 2014, o Arcebispo Metropolitano, Dom Alberto Taveira, fará a benção da corda, próximo ao colégio Santa Catarina e, após esse momento, a própria Guarda de Nazaré fará o corte e entregará os pedaços da corda aos fiéis. Durante a procissão do Círio agentes da Polícia Civil e Militar, além dos Guardas de Nazaré, estarão de prontidão para identificar pessoas suspeitas de portar arma branca durante o trajeto. De acordo com a Diretoria da Festa, muitas pessoas cortam a corda para comercializar a terceiros. Quem for flagrado com faca durante a procissão será detido e responderá por porte de arma branca.

Em mais um ano, a Diretoria da Festa de Nazaré e a Arquidiocese de Belém seguem com a campanha pelo “Não corte antecipado da corda” do Círio e da Trasladação. A campanha foi criada em 2011 e foi motivada pela necessidade de manter VIVO este símbolo tão importante da devoção à Nossa Senhora e, também, para evitar possíveis acidentes durante as procissões.

Núcleos e Estações – Com o intuito de buscar maior agilidade no percurso das procissões da Trasladação e do Círio, e com a perspectiva da Corda chegar atrelada a Berlinda, a Diretoria da Festa de Nazaré, desde o Círio 2004, alterou o formato da Corda nestas procissões, que deixou de ser em forma de “U” para ser linear. Na Trasladação e Círio de 2014, a Corda continua sendo dividida em núcleos (da Cabeça e da Berlinda) e estações (são cinco, ao todo) com cordões de isolamento feitos pela Guarda de Nazaré e fuzileiros da Marinha do Brasil.

Estudos recentes do Dieese apontam que o Núcleo da cabeça da corda, com 11 metros, será conduzido por cerca 92 pessoas (por dentro do núcleo). No caso das cinco estações, cada uma com 6 metros, serão levadas por quase de 50 promesseiros. Ao total, aproximadamente 7.542 promesseiros devem puxar a Corda da Berlinda no Círio 2014.

Curiosidades
Fé – A devoção a Nossa Senhora de Nazaré remonta ao início da colonização portuguesa. O termo Círio vem da palavra latina “cereus”, que significa vela ou tocha grande. Por ser a principal OFERTA dos fiéis nas procissões em Portugal, com o tempo, o termo passou a ser sinônimo da procissão de Nazaré aqui em Belém e de muitas outras pelas cidades do interior do Estado.

capture-20141012-141128Duração – O ano de 2004 ficou marcado na história do Círio de Nazaré por ter tido a mais longa das procissões de todos os tempos, com trajeto cumprido em 9 horas e 15 minutos.

Milagres – São inúmeros os milagres atribuídos pelos cristãos, por meio da intercessão da Virgem de Nazaré. O primeiro conhecido no mundo foi relatado pelo fidalgo Dom Fuas Roupinho, cujo cavalo galopava descontrolado para um abismo. Ao invocar a Virgem, o cavalo estancou, salvando o fidalgo da morte certa. Outro milagre aconteceu no ano de 1846, com os passageiros de um brigue português – embarcação de dois mastros comuns – denominado São João Batista, que deixou Belém rumo a Lisboa no dia 11 de julho. Dias depois, o brigue naufragou e os passageiros foram salvos por um bote que os trouxe de volta à Belém. O brigue havia, anos antes, transportado a Imagem de Nossa Senhora de Nazaré a Lisboa, para ser restaurada. O bote que salvou os náufragos também era o mesmo que tinha levado a Imagem até o brigue ancorado ao largo da cidade.

Como representação de alguns desses milagres, os romeiros levam objetos de cera, miniatura de barcos, casas e até mesmo cadernos e livros. Esses objetos são depositados nos carros das promessas. Ao todos são 13 carros: Carro de Plácido, Barca dos Escoteiros, Barca Nova, quatro Carros dos Anjos, Cesto de Promessas, Barca com Velas, Barca Portuguesa, Barca com Remos, Carro Dom Fuas e Carro da Santíssima Trindade.

Ex-votos – O destino de alguns ex-votos, ou seja, os objetos depositados nos Carros do Círio, e que representam as graças alcançadas pela interseção de Maria, vão para o Memória de Nazaré, exposição permanente em espaço montado ao lado da Casa de Plácido desde o ano passado, e também no Museu do Círio, instalado no Complexo Feliz Lusitânia.

História – No Pará, a devoção à Virgem nasce com a história do caboclo Plácido, que encontrou a pequena Imagem de Nossa Senhora de Nazaré às margem do Igarapé Murutucu, que corria pela atual travessa 14 de Março, onde hoje ficam os fundos da Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. Imaginando que algum devoto da cidade de Vigia havia esquecido a Imagem ali, levou-a para casa. No dia seguinte, não a encontrou. Ela havia retornado ao igarapé. Nova tentativa, novo retorno da Imagem ao nicho que havia escolhido. A Imagem, então, teria sido levada para a Capela do Palácio do Governo da Província, onde ficou guardada por escolta. De manhã, não havia nada na Capela, a Imagem havia retornado ao igarapé. Obedecendo aos desejos da Virgem, à beira do igarapé foi construída uma ermida, que deu início à romaria e à devoção do povo paraense à Virgem de Nazaré.

A primeira procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré saiu na tarde do dia 8 de setembro de 1793. Na noite anterior, a Imagem da Santa havia sido transferida de sua ermida na Estrada do Utinga para o Palácio do Governo, com toda a pompa da época, com 1.932 soldados da Milícia participaram do cortejo. A mobilização foi grande, tinha gente de toda a redondeza de Belém atraída pela feira que o governador determinou que fosse instalada no terreno que circundava a ermida, para a venda de produtos regionais. Desde a sua instituição, até 1881, a procissão saia da Capela do Palácio do Governo.

O Círio passou a ser realizado pela manhã em 1854, uma adequação feita por conta das fortes chuvas que aconteciam durante a tarde. A partir de 1882, o bispo Dom Macedo Costa, de comum acordo com o Presidente da Província, Dr. Justino Ferreira Carneiro, resolveu que o ponto de partida seria a Catedral da Sé, o que acontece até hoje.

O segundo domingo de outubro ficou definido como o dia de realização da procissão do Círio, em 1901. No Círio 200, em 1992, a Imagem que saiu na procissão foi a Imagem Original encontrada por Plácido. Até o ano de 1999, a Missa foi celebrada no interior da Igreja, como a cada ano aumentava mais a participação do povo, a partir do ano 2000, a pedido do Padre José Gonçalo Vieira, Vigário da Cúria Arquidiocesana, a missa passou a ser celebrada em um tablado em frente à Catedral da Sé.

Atualmente, a Festa de Nazaré é uma realização conjunta entre a Arquidiocese de Belém, a Basílica Santuário de Nazaré, a Diretoria da Festa de Nazaré, o Governo do Estado do Pará e a Prefeitura de Belém. Para mais informações sobre o Círio, acesse: http://www.ciriodenazare.com.br/portal/.

 

Sinal de fumaça

As queimadas na Amazônia aumentaram este ano e a fumaça já chega até o sul do País, que também sofre com a falta de água
 

capture-20141008-084114No Norte do País, o período de julho a outubro é marcado pelo aumento da temperatura e diminuição das chuvas, o que caracteriza o chamado  “verão amazônico”. É neste período também que, infelizmente, o número de queimadas aumenta na região, seja para a renovação de pastagens ou para a abertura de novas áreas, queimando floresta em pé ou já parcialmente derrubada.

“Essas queimadas, além de destruírem a floresta, liberam grandes quantidades de gases do efeito estufa, contribuindo assim para o aumento da temperatura global, o que vai contra os compromissos assumidos internacionalmente pelo Brasil  para redução de emissões”, afirma Rômulo Batista, da campanha da Amazônia do Greenpeace.

Depois de o governo federal confirmar o aumento de 29% no desmatamento da Amazônia no ano passado e o DETER divulgado no início do mês apontar uma tendência de novo aumento esse ano, as queimadas parecem seguir a mesma linha de crescimento, com expansão para  diferentes regiões da Amazônia.

Ao compararmos os números de janeiro a agosto deste ano, com o mesmo período de 2013,  houve um aumento de 36% em média nos focos de queimadas nos estados da Amazônia Legal. Assim como na projeção do desmatamento, o Pará lidera no número de incêndios, com 109% de aumento. Além do aumento no número de queimadas e incendios outro fato que chama a atenção é que, no estado do Pará, a maior parte dos focos se concentra ao longo da BR 163. A região,  segundo dados do INPE, também apresentou grandes áreas de desmatamento,  no entorno do Parque Indígena do Xingu.

Focos de incêndio no dia 13/09 ao longo da BR 163. (© Greenpeace)

As consequências das queimadas no entorno do Parque Indígena do Xingu, não afetam somente a região, mas também a região sul do País, já que a fumaça produzida a partir das queimadas na região acaba levada pelas correntes de ar. “Assim como as chuvas produzidas na Amazônia irrigam todo o Brasil, os mesmos ventos levam a fumaça das queimadas para o  sul do País, que já sofre este ano com uma forte estiagem e falta de chuvas”, explica Rômulo.

Focos de queimadas no entorno do Parque Indígena do Xingú e o percuso da fumaça até o sul do país (© Greenpeace)

As consequências do desmatamento e queimadas na Amazônia não afetam apenas o ecossistema local e as pessoal que habitam a região, mas todo o Brasil.  Para combater esses problemas mais de um milhão de brasileiros, de todos os estados, já apoiaram o  projeto de lei popular pelo desmatamento zero. O mundo precisa da Amazônia viva.

greenpeace.org/brasil/

Conheça os senadores eleitos dos 9 estados da Amazônia Legal

Candidato pelo Amazonas, Omar Aziz registrou a maior vantagem da região: 58,51% dos votos válidos no Estado

Eleitores dos nove estados da Amazônia Legal foram às urnas neste domingo (5) para eleger, entre outros cargos, um nome para ocupar a cadeira de senador no Congresso Nacional. Os eleitos têm a responsabilidade de zelar pelos direitos constitucionais do povo, julgar o Presidente da República, além de analisar e votar projetos de lei, entre outras atividades. Confira abaixo:RTEmagicC_planalto-brasilia_01.jpg

Senador eleito

Estado

Porcentagem de votos

  Número de votos

Gladson Cameli (PP)

Acre

55,97%

      130460

Davi Alcolumbre (DEM) 

Amapá

36,25%

      130777

Omar Aziz (PSD)

Amazonas

58,51%

      922653

Roberto Rocha (PSB) 

Maranhão

51, 49%

     1456381

Wellington Fagundes (PR)

Mato Grosso

48,20%

     638768

Paulo Rocha (PT) 

Pará

46,10%

    1532953

Acir Gurgacz (PDT) 

Rondônia

42,02%

    311657

Telmário Mota (PDT) 

Roraima

41,20%

    91037

Katia Abreu (PMDB)

Tocantins

41, 65%

   2811983

 http://portalamazonia.com/

Aves endêmicas da Amazônia deixam região e correm risco de extinção

BRASÍLIA – A Amazônia é o bioma da Terra que concentra a maior quantidade de formas de vida animal e vegetal. Seja pelo tamanho continental ou pela facilidade com que a vida desenvolve-se. Mas este cenário pode mudar. Uma pesquisa do projeto Bichos do Pantanal indica que aves da Amazônia estão em migração para o Pantanal. A conclusão é do coordenador-técnico e chefe de pesquisa Douglas Trent.

Segundo Douglas, que também é fotógrafo do projeto, aves como a curica (Amazona amazonica), a esmeralda-de-cauda-azul (Chlorostilbon mellisugus), o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), a garça-da-mata (Agamia agami), o gavião-de-anta (Captrius ater), o araçari-miudinho-de-bico-riscado (Pteroglossus inscriptus) e o alegrinho-do-rio (serpophada hypoleuca), até algum tempo avistadas somente na Amazônia, estão descendo o rio Paraguai em direção ao Pantanal. O motivo para a mudança de ambiente ainda é indeterminada.

Leia também:
Pesquisadora realiza inventário de aves em Tefé, no Amazonas

A notícia não é boa para o equilíbrio ecológico, uma vez que as espécies da Amazônia e do Pantanal disputam os mesmos alimentos. E isso pode acarretar a redução ou a extinção de algumas espécies.

O projeto Bichos do Pantanal, patrocinado pela Petrobras, foi criado com o objetivo de mapear e analisar toda a fauna de Cáceres, na bacia do alto Pantanal, no Mato Grosso; e criar um inventário com documentação das populações e dos territórios dos animais estudados, incluindo peixes, ariranhas, lontras, aves e onças-pintadas. O projeto serve, ainda, para promover a educação ambiental; gerar emprego e renda relacionados ao turismo sustentável, desenvolvendo a região, e fornecer subsídios para a criação de políticas públicas.

*Com informações da Petrobras

Varejista de madeira na Inglaterra retira produtos de origem amazônica das lojas

A megaempresa britânica Jewson, especializada em vendas de madeira e materiais de construção, anunciou que vai retirar temporariamente toda a madeira de origem amazônica de suas mais de 600 lojas na Inglaterra, sobretudo os deques feitos à base de Ipê. O anúncio se deu após denúncia do Greenpeace sobre a contaminação do mercado de madeira da Amazônia, região que sofre com altos índices de ilegalidade nas áreas de extração madeireira.

Segundo nota da própria Jewson, emitida em conjunto com sua fornecedora, International Timber, são exigidos das empresas brasileiras somente os documentos oficiais de movimentação de madeira (DOF-GF3), apontados pelo Greenpeace como insuficientes para garantir origem legal da madeira. Após as denúncias, a empresa britânica prometeu auditar sua cadeia para conhecer a origem de seus produtos independentemente da documentação oficial, e contratou especialistas no Brasil.

A Jewson compra madeira da International Timber (ambas pertencentes ao grupo Saint Gobain) que, segundo a própria Jewson, tem como fornecedores no Brasil as empresas Solimad Madeiras e Condor Florestas. Estas últimas são exportadoras de madeira baseadas no Estado de Rondônia, e já receberam multas do IBAMA de mais de R$ 5 milhões por desmatamento, extração ilegal de madeira, lavagem de dinheiro e falsificação de documentação oficial.

“O mercado internacional está preocupado, e começa a tomar medidas contra a madeira ilegal. Enquanto isso, no Brasil, mesmo após as denúncias do Greenpeace sobre o descontrole do setor madeireiro, nada foi feito. Não dá para os governos estaduais e federal fingirem que está tudo bem. Já passou da hora de agir, começando pela revisão dos planos de manejo na Amazônia”, defendeu Marina Lacôrte, da campanha da Amazônia do Greenpeace.

Em maio, o Greenpeace lançou um relatório sobre a atual situação da ilegalidade no mercado madeireiro na Amazônia, usando como exemplo casos de planos de manejo com indícios de fraude no Estado do Pará. A denúncia foi feita no Brasil e em oito países que compram madeira amazônica.

Mais de 80 mil apoiadores da campanha na Inglaterra pediram que a Jewson suspendesse o comércio de madeira amazônica até que pudesse garantir a origem legal dos produtos. A empresa negou ilegalidades com nota divulgada no dia 16 de maio, mas assumiu que deve buscar saber a origem de seus produtos.

O governo britânico também iniciou uma investigação sobre a Jewson,  segundo informou o National Masurament Office – NMO, responsável por implementar a EUTR, a lei que regulamenta o mercado madeireiro na União Europeia (European Union Timber Regulation). Editada em março de 2013, a EUTR afirma que os importadores devem ser prudentes e tomar medidas necessárias para evitar a contaminação do mercado da União Europeia com madeira ilegal. Porém, cada país deve implementá-la individualmente.

A campanha pelo mundo

Na França, um carregamento de maçaranduba com madeira suspeita de ser ilegal chegou ao porto de Le Havre, na França, no último dia 10 de junho. Adquirido da empresa Rancho da Cabocla pelo grupo Belga Saelens, ele é proveniente do porto de Belém, no Pará, estado em que 78% das áreas de exploração madeireira são consideradas ilegais.

A madeireira Rancho da Cabocla apresenta um histórico de ilegalidades no setor madeireiro e acumulou uma série de multas por extração ilegal de madeira e seu comércio, e também por falsificação de informações. A Saelens deveria saber que a compra de madeira nessas condições merece mais atenção do que somente a apresentação de papéis oficiais.

O Greenpeace pediu às autoridades belgas para efetuar os controles previstos na EUTR e, se necessário, aplicar as devidas sanções. Já na França, a EUTR ainda não foi votada, o que significa que, até que a França aprove e publique seu regulamento, muita floresta ainda poderá ser destruída.

Autoridades competentes e empresas importadoras de outros países europeus também estão demonstrando preocupação com a situação da madeira amazônica brasileira. A Espanha classificou a madeira da Amazônia como de alto risco, enquanto na Itália o ministro italiano de Agricultura e Florestas, Maurizio Martina, anunciou a aprovação de decreto que regulamenta a aplicação da legislação europeia de combate à madeira ilegal. 

O único que parece não se preocupar de fato é o governo brasileiro, cúmplice dessa situação, e que até agora não se pronunciou sobre as denúncias do Greenpeace. Enquanto o governo segue calado, a floresta amazônica continua sendo predatória e ilegalmente destruída e vendida aos pedaços, com papel oficial e tudo.

greenpeace.org

Os satélites e a degradação na Amazônia

A campanha Chega de madeira ilegal mostrou como os sistemas de controle e fiscalização da exploração madeireira adotados na Amazônia brasileira são falhos e permitem fraudes que resultam na contaminação do mercado com madeira de origem desconhecida e ilegal.

Identificar na floresta quais são os locais de exploração ilegal é fundamental para frear a contaminação da produção sustentável de madeira e impedir o desmatamento na sua origem. Porém, a exploração ilegal que busca os melhores exemplares de cada espécie, semelhante a um garimpo, é mais difícil de ser detectada, já que ela mantém algumas árvores que têm valor comercial baixo, e não provoca aquela destruição generalizada que é conhecida como corte raso.

Durante a pesquisa sobre madeira ilegal, o Greenpeace analisou imagens do satélite Radarsat-2, fornecidas pela MacDonald Dettwiler and Associates Ltd (MDA), com o objetivo de detectar e mapear mudanças na cobertura florestal relacionadas à exploração de madeira.

As expedições terrestres e sobrevoos  realizados nas aéreas apontadas pelo Radarsat-2 confirmaram os alertas gerados e mostraram que a utilização de imagens desse satélite para o monitoramento da exploração madeireira pode contribuir com a fiscalização dos Planos de Manejo Florestais e como sistema de alerta para identificar locais de exploração ilegal.

O Radarsat-2 se diferencia dos demais por estar equipado com um sensor de radar em que não existem interferências significativas de condições atmosféricas, ou seja, que mesmo com nuvens consegue gerar imagens de alta qualidade.

As imagens de satélite utilizadas pelo Deter – o sistema oficial de detecção em tempo real do desmatamento do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) –, por exemplo,  não conseguem identificar os desmatamentos em áreas cobertas por nuvens.

Para se ter uma idéia, no estado do Pará, que na medição mais recente do Deter apresentou um alerta expressivo no desmatamento, 86% da área do estado estava impossibilitada de qualquer análise por conta da cobertura de nuvens. Já no Amazonas, a cobertura de nuvens atingia 89% do estado.

Além disso, os satélites comuns também não conseguem identificar desmatamentos menores do que 26 hectares, o que é um problema, pois houve uma mudança na dinâmica do desmatamento: no lugar de grandes áreas, como acontecia antigamente, hoje ele costuma ocorrer em áreas pequenas e em faixas intercaladas de florestas, buscando justamente burlar a detecção pelos satélites.

O Deter continua sendo importante para que os órgãos federais de fiscalização saibam onde o desmatamento está ocorrendo e assim consigam agir mais rapidamente. No entanto, essas limitações acabam sendo um impeditivo para uma maior efetividade das ações de combate à degradação causada para exploração ilegal de madeira, que é o primeiro passo para a destruição total da floresta.

Desde 2010 que o Ministério do Meio Ambiente parou de monitorar a degradação. Apesar da existência de tecnologia, até agora as imagens de satélites equipados com radar não têm sido utilizadas pelos órgãos de fiscalização. É hora de dar um salto para enfrentar o forte ressurgimento do “garimpo” florestal, que cada vez mais vai longe dentro da floresta em busca de espécies raras, como o Ipê, comprometendo a floresta.

por Luana Lila /greenpeace.org

Os satélites e a degradação na Amazônia

Estrada aberta para extração de madeira. Foto: Greenpeace/Marizilda Cruppe

A campanha Chega de madeira ilegal mostrou como os sistemas de controle e fiscalização da exploração madeireira adotados na Amazônia brasileira são falhos e permitem fraudes que resultam na contaminação do mercado com madeira de origem desconhecida e ilegal.

Identificar na floresta quais são os locais de exploração ilegal é fundamental para frear a contaminação da produção sustentável de madeira e impedir o desmatamento na sua origem. Porém, a exploração ilegal que busca os melhores exemplares de cada espécie, semelhante a um garimpo, é mais difícil de ser detectada, já que ela mantém algumas árvores que têm valor comercial baixo, e não provoca aquela destruição generalizada que é conhecida como corte raso.

Durante a pesquisa sobre madeira ilegal, o Greenpeace analisou imagens do satélite Radarsat-2, fornecidas pela MacDonald Dettwiler and Associates Ltd (MDA), com o objetivo de detectar e mapear mudanças na cobertura florestal relacionadas à exploração de madeira.

As expedições terrestres e sobrevoos  realizados nas aéreas apontadas pelo Radarsat-2 confirmaram os alertas gerados e mostraram que a utilização de imagens desse satélite para o monitoramento da exploração madeireira pode contribuir com a fiscalização dos Planos de Manejo Florestais e como sistema de alerta para identificar locais de exploração ilegal.

O Radarsat-2 se diferencia dos demais por estar equipado com um sensor de radar em que não existem interferências significativas de condições atmosféricas, ou seja, que mesmo com nuvens consegue gerar imagens de alta qualidade.

As imagens de satélite utilizadas pelo Deter – o sistema oficial de detecção em tempo real do desmatamento do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) –, por exemplo,  não conseguem identificar os desmatamentos em áreas cobertas por nuvens.

Para se ter uma idéia, no estado do Pará, que na medição mais recente do Deter apresentou um alerta expressivo no desmatamento, 86% da área do estado estava impossibilitada de qualquer análise por conta da cobertura de nuvens. Já no Amazonas, a cobertura de nuvens atingia 89% do estado.

Além disso, os satélites comuns também não conseguem identificar desmatamentos menores do que 26 hectares, o que é um problema, pois houve uma mudança na dinâmica do desmatamento: no lugar de grandes áreas, como acontecia antigamente, hoje ele costuma ocorrer em áreas pequenas e em faixas intercaladas de florestas, buscando justamente burlar a detecção pelos satélites.

O Deter continua sendo importante para que os órgãos federais de fiscalização saibam onde o desmatamento está ocorrendo e assim consigam agir mais rapidamente. No entanto, essas limitações acabam sendo um impeditivo para uma maior efetividade das ações de combate à degradação causada para exploração ilegal de madeira, que é o primeiro passo para a destruição total da floresta.

Desde 2010 que o Ministério do Meio Ambiente parou de monitorar a degradação. Apesar da existência de tecnologia, até agora as imagens de satélites equipados com radar não têm sido utilizadas pelos órgãos de fiscalização. É hora de dar um salto para enfrentar o forte ressurgimento do “garimpo” florestal, que cada vez mais vai longe dentro da floresta em busca de espécies raras, como o Ipê, comprometendo a floresta.

 por Luana Lila /greenpeace

Professores fazem greve de fome no interior do Pará

Oito professores municipais e agentes educacionais declararam greve de fome em Xinguara, no interior do Pará, para chamar a atenção para intervenção do Ministério Público Estadual nas negociações de reajuste salarial da categoria. Os educadores da cidade estão em greve há quase um mês, quando decidiram cruzar os braços após semanas de disputas por reajuste salarial e outros direitos. A Justiça foi acionada e se posicionou inicialmente de maneira favorável aos educadores, não determinando a volta às aulas imediatos.

O caso foi levado ao Tribunal Regional do Trabalho, que ainda não decidiu sobre a legitimidade da paralisação. O que revoltou os professores e culminou na greve de fome foi o fato de, mesmo sem uma definição da Justiça, o promotor Renato Bellini ter emitido recomendação orientando o município a cortar pontos, abrir processo administrativo contra os grevistas e e contratar substitutos. Em outras cidades paraenses como Abaetetuba e Barcarena, e mesmo na capital Belém, professores municipais também estão mobilizados, mas em nenhuma delas a situação chegou a tal extremo.

“Estamos há mais de 58 horas sem se alimentar, tomando somente água de coco e água, com acompanhamento médico”, diz a professora Maria Reis, da comissão de negociação dos grevistas. “Estamos tentando negociar, mas a situação chegou a tal ponto que não deu mais. Temos legalidade por parte do judiciário, mas não houve nenhum esboço de tentativa do governo municipal negociar”, afirma. “Não temos tido espaço para cobrar nossos direitos. Não podemos mais entrar nos espaços educacionais ou nas plenárias em que o assunto é discutido na Câmara Municipal. Colocaram seguranças para barrar nosso acesso.”

Repórter Brasil tentou contato com o prefeito Osvaldinho Assunção (PMDB), mas não obteve retorno. Com 22 anos de profissão, a educadora reclama da maneira como a prefeitura está conduzindo a situação. “Estamos preocupados com o ano letivo e por isso resolvemos radicalizar. São vidas que estão aqui. Estamos em greve de fome em frente ao Ministério Público e o sindicato estadual (Sintepp) está em Xinguara para tentar negociar. A prefeitura está contratando substitutos, que não são pessoas qualificadas. O prefeito chegou a falar que resolveria a situação com mutirões de outras secretarias. Educação não se faz com mutirão e sim com profissionais”, lamenta.

Denúncia de desvio de recursos
Alvo do protesto, o promotor Renato Bellini afirma que não vai revogar a recomendação a não ser que a Justiça determine que a greve é legal. Questionado sobre o fato de ter assumido a defesa da prefeitura sem que a paralisação tenha sido julgada, ele diz que agiu por estar sendo pressionado por pais e pelos professores contrários à paralisação. “Houve um problema entre o juiz e o advogado do município, e o processo subiu para um desembargador. A gente perdeu a autoridade judicial e a greve continuou, não teve jeito”, diz o promotor, que defende que a greve em questão é ilegal. “Os piquetes são agressivos, há diversos problemas. E se eles fazem uma greve, têm que respeitar algumas regras. Uma delas é abrir a assembleia com quórum de instalação, de deliberação, ouvir todo mundo e conferir direito a voto. A decisão tem que ser colegiada, mas temos depoimentos de professores que afirmam terem sido expulsos da assembleia.”

Professores querem que Corregedoria do MPE abra investigação para apurar conduta do promotor. Foto: Divulgação/Sintepp

Ele diz que os professores que cruzaram os braços não representam toda a categoria e têm sido intransigentes. “Participamos de três tentativas de negociação, mas a postura dos grevistas foi infrutífera. Eles sempre tumultuavam, nem chegaram a debater a proposta. O município entrou com uma ação para declarar a ilegalidade”, defende, ressaltando que em Xinguara o piso da categoria é respeitado – o promotor diz que, em municípios em que atuou antes, como Pacajá e Anapu, chegou a “encabeçar a luta dos professores porque a prefeitura não estava pagando o piso”.

“O município apresentou as planilhas e questões de custo. Eles estão cumprindo a lei do piso. Qual é o problema então? É que eles chegam nessas reuniões e começam a levantar questões, que tem desvio aqui, recurso aplicado indevidamente aqui, que tem contratado assim, que tem aquilo. E querem que essas denuncias sejam inseridas nessa discussão”, diz.

As denúncias dos professores são em relação à maneira como os recursos federais do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) estão sendo distribuídos na cidade. Os educadores reclamam que falta transparência e nunca tiveram acesso a informações sobre os repasses. Questionado se chegou a abrir inquérito para verificar as denúncias feitas nas reuniões, o promotor diz não ter cogitado a possibilidade até então. “Na hora que ficaram falando, me pareceu acusação sem fundamento. Precisa de elementos mínimos. Mas eu pedi, venham conversar, entreguem depoimentos, isso vai ser apurado.Vou instaurar procedimento de administração para ver isso do Fundeb. Não cheguei a verificar ainda, estou concentrado nas questões da greve”, afirma.

Por Daniel Santini

Índios comparam ruralistas a bandeirantes em protesto contra a PEC 215

São Paulo (SP) – Cerca de 200 índios da etnia guarani, acompanhados de outros 100 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento Passe Livre (MPL) e do Comitê Popular da Copa do Mundo, realizaram nesta sexta-feira, dia 6, um protesto em São Paulo (SP) contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215. Eles pedem o arquivamento do projeto, que transfere a tarefa de demarcação de territórios indígenas e áreas quilombolas do Poder Executivo para o Congresso Nacional.

“Estamos aqui hoje para mostrar nossa insatisfação com uma política de Estado”, explicou àRepórter Brasil Karaí Popygua, liderança indígena e morador da aldeia Tekoa Pyau, na terra indígena Jaraguá, localizada no extremo norte da capital paulista. “Estamos resistindo a todas essas investidas. Queremos muito que o governo respeite os nossos territórios e demarque os nossos espaços, para que possamos viver de uma maneira justa em nossas terras”, acrescenta.

Os manifestantes ocuparam os dois sentidos da avenida Pedro Álvares Cabral —“homenagem ao primeiro branco que invadiu nossas terras”, como lembraram os índios —, em frente à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), onde ocorria uma audiência pública para discutir a PEC 215, organizada por integrantes da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), a chamada bancada ruralista. De acordo com os índios, a iniciativa faz parte de uma série de tentativas dos ruralistas de fortalecer a proposta e conseguir sua aprovação. Os manifestantes afirmam que não participam dessas atividades com o objetivo de não legitimar o projeto.

Vazia, audiência não tem participação indígena

Organizadores da audiência no interior da Alesp, os deputados federais Osmar Serraglio (PMDB/PR) e Junji Abe (PSD/SP), integrantes da bancada ruralista, argumentaram, na abertura do evento, que “pretendiam ouvir todas as parcelas da sociedade brasileira envolvidas”. Mesmo assim, a sessão estava esvaziada e contava com de pouco mais de 20 presentes, com maioria de representantes de entidades ligadas ao agronegócio. Nenhum indígena compareceu.

Também estiveram presentes o procurador da República Walter Claudius Rothemburg, o jurista Dalmo de Abreu Dallari, o desembargador do Tribunal Regional da 3ª Região (TRF-3) Luiz Stefanini e o diretor da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Angelo Munhoz. Além deles, participaram representantes da Sociedade Rural Brasileira, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e da Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo.

“Seria inútil participar da audiência. A gente já sabe o que significa essa PEC”, afirmou Jera Guarani, residente da terra indígena Tenondé Porã (veja mais abaixo), nas imediações de Parelheiros, extremo sul de São Paulo (SP). Segundo ela, a iniciativa dos ruralistas tenta enganar os povos indígenas ao argumentar que no âmbito legislativo a demarcação de terras seria mais rápida.

Ela ressaltou que, por conta da força da bancada ruralista e da sub-representação de índios no Congresso, dificilmente a medida seria benéfica. “Todo mundo sabe, e principalmente os índios, que se a demarcação de terras cair nas mãos deles não vai haver mais demarcações”, salienta.

“A PEC 215 é absolutamente inconstitucional. Ofende a Constituição a começar pela quebra da separação de poderes”, disse o jurista e professor aposentado da Faculdade de Direito da USP, Dalmo Dallari, em entrevista à reportagem. Ele estava presente na audiência que ocorria ao mesmo tempo do protesto no interior da Alesp (veja box acima). “As tarefas administrativas são de competência do Executivo e o que se está pretendendo é que o Congresso participe da demarcação de terras, que é atividade essencialmente administrativa.” “Outro ponto é que a PEC permite a revisão de terras já homologadas. Não é possível constitucionalmente essa revisão que, em muitos casos, significa retirar direitos fundamentais”, completou Dallari.

Ruralistas e bandeirantes
Durante o ato, os indígenas malharam bonecos representando membros da bancada ruralista, como a senadora Kátia Abreu (PMDB/TO) e o senador Blairo Maggi (PR/MT), e os deputados Alceu Moreira (PMDB/RS), Luiz Carlos Heinze (PP/RS) e Paulo César Quartiero (DEM/RR). E também afixaram cartazes com o rosto dos parlamentares no Monumento às Bandeiras, vizinho ao Parque do Ibirapuera, em São Paulo (SP), e nas proximidades da Alesp.

Comissão Guarani Yvyrupa fecha a Av. Pedro Álvares Cabral em São Paulo (Foto: Beatriz Macruz)

“Os ruralistas de hoje são os bandeirantes de ontem, e por meio da caneta querem nos matar como nos mataram no passado com suas armas de fogo”, afirmam os índios em um manifesto divulgado nesta sexta-feira. “Enquanto os brancos homenageiam em estátuas, ruas e rodovias aqueles que nos mataram, seus governantes continuam encarnando o espírito dos bandeirantes. Pedro Álvares Cabral foi o primeiro ruralista. E muitos o sucederam”, acrescenta o documento. “[Eles] têm o espírito dos bandeirantes, aqueles que usam de seu poder para enriquecer e concentrar terras, enquanto nós povos originários continuamos nas beiras de estrada, espoliados de nossos tekoa, e grandes massas de excluídos seguem sem ter onde dormir, sem ter onde morar, sem ter onde plantar.”

Jaguata katu joupiveguari!
Organizados em torno da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), que reúne no município de São Paulo guarani do Sul e Sudeste do Brasil, os índios também conclamam, segundo o manifesto divulgado hoje, que “movimentos sociais do campo e da cidade se unam para formação de uma frente única contra os ruralistas”. Conforme afirmam, políticos ligados à bancada ruralista e empresários do ramo do agronegócio estão entre os principais patrocinadores da violação de direitos contra índios, pequenos agricultores, trabalhadores sem-terra e outros povos tradicionais.

“Qualquer movimento do campo, historicamente, sofre um ataque da oligarquia rural e, hoje, do que a gente chama de agronegócio, com a mídia e o capital financeiro, que avançam em territórios sobre os quais ainda não têm controle”, aponta Michel Navarro, da coordenação regional do MST. As organizações citam no manifesto, por exemplo, o deputado federal Luiz Carlos Heinze, que em uma declaração recente classificou homossexuais, quilombolas e indígenas como “tudo aquilo que não presta”. Recentemente, o parlamentar foi, juntamente com seu colega Alceu Moreira (PMDB/RS), alvo de uma representação por racismo e incitação ao crime, apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF).

“Da mesma forma que ocorre com os indígenas, acontece com os assentamentos [da reforma agrária]. Então, para a gente enfrentar a concentração de terras e a força do agronegócio no Congresso, precisamos fazer uma ampla aliança, sobretudo com os povos do campo”, lembra o integrante dos Sem Terra.

O ato durou cerca de três horas. Ao longo da manifestação, os índios entoavam cânticos e celebravam a sua cultura. “Jaguata katu joupiveguari!” e “Nhanembaraete joupiveguari!”, ouvia-se durante a passeata. Em guarani, eles queriam dizer: “Vamos andar juntos, todos aqueles que são iguais. Vamos ficar fortes, todos aqueles que são iguais!”.

Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo também é alvo de protesto

A população guarani que reside na Grande São Paulo distribui-se hoje em seis aldeias, que fazem parte de duas Terras Indígenas atualmente em processo de regularização fundiária. A demora em solucionar os problemas nessas terras fez com que o ministro José Eduardo Cardozo também fosse alvo de protestos na tarde desta sexta-feira.

Duas aldeias, denominadas Aldeia Ytu e Aldeia Pyau, localizam-se no Pico do Jaraguá e compõem a Terra Indígena Jaraguá. As outras quatro aldeias localizam-se no extremo sul da metrópole, na Terra Indígena Tenondé Porã, duas delas em Parelheiros (Aldeia Barragem e Aldeia Krukutu), uma próxima ao distrito de Marsilac (Tekoa Kalipety) e a última em São Bernardo do Campo (Aldeia Guyrapaju). Hoje, a Funai reconhece que esse território deveria abranger 16 mil hectares (Para pesquisar sobre as terras indígenas existentes no Brasil, clique aqui).

A Terra Indígena Jaraguá, situada na Zona Norte da capital e que, segundo a CGY, é a menor do Brasil, concentra aproximadamente 700 guarani em 1,7 hectare, embora a Funai reconheça que deveria abranger 532 hectares. A aldeia Pyau fica fora dos 1,7 hectare já regularizados e atualmente há uma decisão judicial que determina o despejo dos Guarani que ali habitam.

O processo de demarcação conforme a metragem reconhecida pela Funai agora depende do Ministério da Justiça e os guarani reivindicam a publicação imediata da Portaria Declaratória de todas as Terras Indígenas na Grande São Paulo.

pec215-1Cartaz diz: “ministro da Justiça que perdeu a caneta”. Foto: Beatriz Macruz