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quarta-feira, maio 13, 2026

Vicentinho Júnior e o dilema da extrema direita: fidelidade ao radicalismo ou diálogo com o centro?

Analista político de Araguaína alerta que a pré-candidatura ao governo do Tocantins enfrenta uma encruzilhada: o risco de depender de um eleitorado que rejeita vacinas, ciência e meio ambiente pode comprometer o diálogo com a maioria moderada do estado

A política tocantinense vive um momento de reconfiguração. Com o lançamento oficial da pré-candidatura do deputado federal Vicentinho Júnior (PSDB) ao Palácio Araguaia, marcado para esta sexta-feira, 15 de maio, em evento no Centro de Convenções Comandante Vicentão, na orla de Porto Nacional, com a presença esperada de lideranças nacionais do PSDB e do MDB, o cenário político estadual se aquece. Mas, enquanto aliados celebram a mobilização, analistas já levantam questões incômodas sobre a base eleitoral que sustenta — e que pode condicionar — o projeto do parlamentar.

Para Geovane Oliveira, analista político do portal O Melhor da Amazônia, com sede em Araguaína, o eleitorado de extrema direita do Tocantins já escolheu seu favorito: Vicentinho Júnior. E essa escolha, segundo ele, traz consigo tanto uma vantagem estratégica quanto um peso político de consequências imprevisíveis para o estado.

A força e o risco do eleitorado radicalizado

O segmento mais conservador do eleitorado tocantinense — aquele que desconfia das vacinas, acredita que a Terra é plana, é contra o Bolsa Família, nega consensos científicos, rejeita políticas ambientais e defende práticas ilegais no campo — representa uma força eleitoral real, especialmente nas maiores cidades do estado. Segundo Oliveira, esse grupo é fiel, entusiasmado e capaz de gerar uma votação expressiva no primeiro turno.

As vantagens dessa base são claras: ela mobiliza com facilidade, financia campanhas nas redes sociais com engajamento orgânico, não exige moderação dos candidatos e tende a comparecer às urnas com convicção. Em estados do interior, como o Tocantins, esse eleitorado tem peso desproporcional ao seu tamanho numérico.

Mas os riscos são igualmente sérios. Para o analista, se Vicentinho Júnior decidir abraçar integralmente essa agenda — antivacina, negacionista, favorável ao garimpo ilegal e ao desmatamento clandestino —, o custo político pode ser alto demais.

“O que será do nosso Tocantins se o pré-candidato abraçar essas ideias?”, questiona Oliveira. A pergunta não é retórica: ela aponta para consequências concretas que vão além das urnas.

O que está em jogo na agenda do radicalismo

Programas de saúde que levaram décadas para ser construídos correm risco em cenários nos quais gestores eleitos por bases antivacina assumem secretarias e coordenadorias. Doenças erradicadas ou controladas — como sarampo, poliomielite e tuberculose — podem retornar em contextos de baixa cobertura vacinal. O SUS, que é a principal — e, em muitos municípios tocantinenses, a única — rede de atendimento da população, depende diretamente de políticas de prevenção baseadas em ciência.

Na área ambiental, o Tocantins possui uma posição geográfica singular: o estado é cortado pelo cerrado, pela Amazônia e pela Caatinga, além de abrigar o Rio Araguaia e parte do Bico do Papagaio. Políticas que tolerem garimpos clandestinos e desmatamento ilegal comprometem bacias hidrográficas, afetam a agricultura familiar e deterioram a qualidade de vida das populações ribeirinhas — que, em sua maioria, não fazem parte do eleitorado radicalizado.

O eleitor do centro, dos moderados e da esquerda

Essa é a outra face da equação. Nas pesquisas mais recentes, Vicentinho Júnior aparece com uma das menores taxas de rejeição entre os pré-candidatos ao governo do Tocantins, com apenas 3,81% de eleitores que afirmam que não votariam nele. Esse dado sugere potencial de ampliação para além da sua base ideológica — mas apenas se o candidato adotar um discurso de centro.

O eleitorado moderado, que defende vacinas, o meio ambiente, a agricultura familiar e o SUS, representa o segmento mais numeroso do estado. São trabalhadores rurais assentados, professores da rede pública, profissionais de saúde, moradores de periferias urbanas e pequenos agricultores que dependem de políticas públicas para sobreviver. Esse grupo observa com desconfiança candidatos que flertam com o negacionismo.

A vantagem do diálogo com o centro: Vicentinho ampliaria significativamente suas chances no segundo turno, onde a polarização tende a beneficiar candidatos com perfil conciliador. O próprio pré-candidato, ao migrar para o PSDB, declarou que deseja um projeto “com foco em união, fortalecimento institucional e mudança responsável” — linguagem claramente voltada ao eleitor moderado.

A desvantagem de abandonar o radicalismo: ao se distanciar da extrema direita, Vicentinho corre o risco de perder a energia e o entusiasmo dessa base, que pode simplesmente deixar de comparecer às urnas — ou migrar para um candidato que fale mais diretamente a eles.

A mudança de PP para PSDB como termômetro

A própria trajetória partidária do pré-candidato revela esse dilema interno. Vicentinho Júnior deixou o Progressistas e se filiou ao PSDB, assumindo a presidência estadual da legenda — partido historicamente associado ao centro democrático, ao liberalismo econômico moderado e às políticas sociais inclusivas. O próprio presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, definiu a sigla como “de centro, liberal na economia e inclusivo nas políticas sociais”.

Essa guinada sinaliza que o pré-candidato aposta na construção de uma candidatura mais abrangente. Mas a contradição entre o partido escolhido e o eleitorado que o elegeu historicamente ainda não foi inteiramente resolvida — e será um dos nós da campanha.

A voz dos prefeitos e a pressão dos municípios

Há outro ator importante nesse jogo: os prefeitos. O foco da mobilização em torno da pré-candidatura é reunir prefeitos, vereadores e lideranças regionais para consolidar a estrutura de apoio no estado. Os gestores municipais, que lidam diretamente com a saúde pública, o saneamento e as demandas da população, raramente têm interesse em governadores que rompam com o financiamento federal de programas de atenção básica — que depende, entre outros critérios, do cumprimento de metas de vacinação.

Para o analista Geovane Oliveira, a questão que permanece sem resposta é simples, mas determinante: Vicentinho Júnior vai governar para todos os tocantinenses — ou apenas para aqueles que acreditam que a Terra é plana?

A resposta a essa pergunta pode definir não apenas o resultado das eleições de 2026, mas o futuro do estado por quatro anos.

Análise do especialista Geovane Oliveira, do portal O Melhor da Amazônia (Araguaína-TO).

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