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quarta-feira, fevereiro 25, 2026

O Preço do Concreto: Araguaína afunda sob falsas promessas e milhões gastos na destruição de seus córregos

Ano após ano, as cenas se repetem com uma previsibilidade trágica. Basta o período chuvoso se intensificar no norte do Tocantins para que o centro de Araguaína seja engolido pelas águas. Diante do caos recorrente, a gestão municipal, comandada por um grupo político que se perpetua no poder há anos, repete a velha cartilha: anuncia gastos de milhões de reais com a promessa definitiva de resolver o problema das enchentes. Na prática, no entanto, o que a população assiste é o dinheiro público escoar pelo ralo, arrastado pela mesma correnteza que inunda o comércio e as vias públicas.

Para especialistas em meio ambiente e urbanismo, a narrativa oficial mascara a verdadeira raiz do problema. As enchentes no centro de Araguaína não são apenas um capricho da natureza, mas o resultado direto de um modelo de “desenvolvimento” predatório e ambientalmente insustentável.

Sob a justificativa de modernizar a infraestrutura, o poder público municipal tem promovido o desmatamento sistemático das matas ciliares — a proteção natural dos rios. Pior do que isso: córregos inteiros estão sendo sufocados, canalizados e concretados para dar lugar a novas avenidas. Trata-se de uma intervenção agressiva que ignora a dinâmica hídrica da região. Ao impermeabilizar o solo e estrangular os leitos d’água, a prefeitura retira da natureza sua capacidade de absorção, transformando ruas em rios artificiais a cada tempestade.

O contraste entre o discurso oficial e a realidade

Para entender a engrenagem desse modelo, basta resgatar o discurso público dos principais líderes do grupo político que administra a cidade. O ex-prefeito Ronaldo Dimas, considerado o arquiteto desse formato de urbanização, buscou um empréstimo internacional de US$ 54,9 milhões (cifras milionárias na cotação atual) junto ao Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), vendendo o “Projeto Águas de Araguaína” como a solução definitiva.

À época do início da implantação da Via Norte — que sepultou trechos inteiros dos córregos Neblina e Canindé —, Dimas prometeu o “fim dos alagamentos” e cravou: “Temos um cronograma e um planejamento muito bem feito. Vamos obedecer à risca tudo o que foi traçado e fazer o melhor pela cidade”. A promessa envolvia “piscinões” que, na teoria, reteriam a fúria das águas, mas que na prática não impedem o caos sazonal no centro urbano.

O atual prefeito, Wagner Rodrigues, não apenas abraçou a herança, como a embalou em uma roupagem de marketing “verde”. Chegou a apresentar a canalização de rios como um “case de sucesso” na COP28 (em Dubai) e na assinatura da Declaração de Barranquilla. Em suas palavras, a concretagem dos leitos foi tratada como um avanço: “Acabamos com mais de 400 ligações clandestinas de esgoto nos córregos Neblina e Canindé durante a canalização para construção da Via Norte, atualmente a maior obra de infraestrutura urbana no Tocantins”, declarou.

Mais recentemente, no início de 2026, Wagner chegou a minimizar a crise ao afirmar à imprensa que a cidade possuía apenas um “único trecho ainda crítico” de alagamento, contrastando brutalmente com os lojistas e moradores que continuam perdendo móveis, mercadorias e paz a cada chuva forte.

O silêncio dos órgãos fiscalizadores

Diante do aterramento de nascentes e da destruição de áreas de preservação permanente (APPs) em pleno perímetro urbano, uma pergunta ecoa entre ambientalistas e cidadãos mais atentos: onde estão os órgãos de fiscalização?

A inércia de instituições estaduais e federais de controle ambiental, assim como a lentidão do Ministério Público, levanta graves questionamentos. A degradação ocorre a céu aberto, sob o pretexto de “obras de mobilidade”, sem que embargos efetivos ou responsabilizações severas recaiam sobre os gestores que autorizam o assassinato dos córregos araguainenses.

A anestesia social e a máquina de narrativas

Como um erro de planejamento urbano tão primário continua sendo vendido como solução sustentável? A resposta reside na máquina de propaganda do grupo político local. Em Araguaína, a velha máxima da comunicação política tem funcionado com perfeição: “uma mentira contada várias vezes torna-se verdade”.

Através de campanhas publicitárias massivas, o soterramento de rios e a derrubada de árvores são embalados como progresso e até como “preservação”. Parte das camadas da sociedade araguainense, bombardeada por essa retórica, parece viver anestesiada, consumindo falsas promessas a cada ciclo eleitoral, enquanto a cidade perde, de forma irreversível, seu patrimônio natural.

As obras milionárias contra enchentes, que na verdade apenas transferem a água mais rápido para outras áreas ou agravam os picos de inundação, são o símbolo máximo de uma gestão que governa para o concreto, e não para o meio ambiente ou para o bem-estar a longo prazo da população.

A fatura desse descaso ecológico já está sendo cobrada, e o custo não é apenas financeiro; é a perda da qualidade de vida, o aumento do calor extremo e o medo constante das águas. A grande questão que paira sobre a capital econômica do Tocantins não é se a próxima enchente virá, mas sim: até quando o povo de Araguaína vai fechar os olhos e os ouvidos para a destruição de sua própria cidade?

Por: Geovane Oliveira

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