A movimentação do senador Irajá Abreu (PSD), nos bastidores das grandes prefeituras do Tocantins acende um alerta entre analistas políticos do estado. Para o analista político Geovane Oliveira, o senador não está apenas construindo alianças por afinidade — ele está executando uma estratégia calculada para capturar o chamado segundo voto nas eleições que se aproximam. E o ponto de partida dessa estratégia passa, necessariamente, pela pré-candidatura ao governo do estado da senadora Dorinha.
O cenário: Dorinha de olho no Palácio Araguaia
Antes de entender a manobra atribuída a Irajá, é preciso compreender o tabuleiro político. A senadora Dorinha é pré-candidata ao governo do Tocantins e lidera uma das principais forças políticas do estado. Em sua chapa, ela deve apresentar dois candidatos ao Senado Federal — nomes que compõem sua aliança e que dependerão diretamente do desempenho dela nas urnas para se elegerem.
Entre os prefeitos que já declararam apoio à candidatura de Dorinha ao governo está Wagner, prefeito de Araguaína, a segunda maior cidade do Tocantins e um dos mais expressivos colégios eleitorais do interior do estado. Também integra o campo aliado da senadora o senador Eduardo Gomes, figura central na articulação política do grupo.
Irajá Abreu, por sua vez, está em campo oposto. O senador é oposição a Dorinha — ou seja, não faz parte de sua chapa, não compõe sua aliança e disputa o Senado por fora do projeto político da pré-candidata ao governo.
A estratégia: infiltrar a campanha pelo palanque alheio
É exatamente nesse ponto que reside o núcleo da análise de Geovane Oliveira. Segundo ele, Irajá estaria buscando aproximação justamente com os prefeitos que apoiam Dorinha — não para integrar a chapa dela, mas para garantir presença nos palanques locais durante a campanha ao governo do estado.
“O Irajá sabe o que está fazendo”, afirma Oliveira. “Ao se aproximar de prefeitos como Wagner, de Araguaína, ele aparece ao lado de quem está na campanha de Dorinha ao governo. E é aí que o eleitor pode se confundir”.
A lógica da estratégia é simples, mas eficaz. Se o prefeito Wagner estiver visivelmente engajado na campanha de Dorinha para governadora — participando de eventos, fazendo palanque, gravando vídeos —, o eleitor naturalmente associa aquela liderança local ao projeto político da senadora. No entanto, ao pedir o segundo voto, o prefeito pode direcionar o eleitor não para os candidatos ao Senado que compõem a chapa de Dorinha, mas para Irajá — que é justamente oposição a ela.
O segundo voto e a armadilha eleitoral
Para entender o risco que o analista aponta, é preciso ter clareza sobre como funciona o voto para o Senado. Dependendo do ciclo eleitoral, cada estado pode eleger um ou dois senadores. Quando são duas vagas, o eleitor vota duas vezes para o Senado — e cada voto é completamente independente.
Nesse cenário, a chapa de Dorinha ao governo contará com dois candidatos ao Senado. O eleitor que apoiar a senadora para governadora, em princípio, tenderia a votar também nos dois nomes do Senado que ela indica. Mas se Irajá conseguir estar presente nos palanques dos prefeitos aliados de Dorinha, ele pode capturar um desses votos — sem que o eleitor perceba que está beneficiando exatamente quem faz oposição à candidata que ele quer eleger governadora.
“O eleitor vai ver o prefeito do lado de Dorinha para governadora e vai achar que todos os candidatos que aquele prefeito apoia fazem parte do mesmo grupo”, explica Oliveira. “Mas o segundo voto que o prefeito vai pedir pode ser para o Irajá, que é oposição a Dorinha. Muita gente não vai perceber essa diferença na hora de votar”.
Máquina pública como trunfo adicional
Além do viés eleitoral, Geovane Oliveira aponta outro componente na equação: a força da estrutura municipal. Ao garantir a simpatia de prefeitos com forte controle da máquina pública, Irajá asseguraria capilaridade logística nos municípios — cabos eleitorais, lideranças de bairro e uma rede de influência que vai muito além dos eventos de campanha.
“A máquina pública ainda tem muito peso no interior do Tocantins”, observa o analista. “Ter um prefeito ao seu lado não é só questão de imagem. É estrutura de campanha — e o Irajá, sendo oposição, conseguiria essa estrutura de graça, aproveitando o trabalho que os prefeitos já farão para Dorinha”.
O alerta ao eleitor
O ponto mais delicado da análise de Oliveira é o impacto sobre o eleitor comum. Em um cenário em que o prefeito local está no palanque de Dorinha para governadora, mas pedindo o segundo voto para Irajá — oposição a ela —, quem não acompanha de perto as articulações políticas pode sair da urna achando que votou numa chapa coesa, quando, na prática, ajudou um candidato que faz exatamente o contraponto ao projeto que pretendia apoiar.
“O eleitor precisa entender que o voto para governador e os votos para o Senado são separados e independentes”, alerta Oliveira. “Você pode votar em Dorinha para governadora e, no Senado, acabar votando no candidato que faz oposição a ela — sem querer, só porque estava seguindo o prefeito no palanque. Essa é a aposta do Irajá”.
Por: Geovane Oliveira


