Grande Reportagem Investigativa | Educação & Contas Públicas.
Uma análise minuciosa de extratos bancários oficiais do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) revela um padrão sistemático de movimentações financeiras que rompeu a rastreabilidade legal de mais de R$ 135 milhões ao longo de 2025, no município de Araguaína. O material indica que recursos vinculados constitucionalmente à educação foram transferidos de forma recorrente para o caixa geral da prefeitura, por meio de operações classificadas como “estorno de repasse indevido”, expediente que especialistas consideram incompatível com a finalidade do Fundo.
O levantamento demonstra que, durante 11 dos 12 meses do exercício, a conta específica do Fundeb praticamente não foi utilizada para o pagamento direto da folha da educação. A regularização ocorreu apenas em dezembro, quando os pagamentos passaram a seguir o rito legal exigido pelo FNDE — movimento que levanta suspeitas sobre uma possível estratégia de acomodação contábil para fins de prestação de contas.
💣 Estornos em Série e Resgates Automáticos: A Engrenagem Financeira Que Esvaziou o Potencial do FUNDEB
Investigação Especial | Finanças Públicas
Os extratos analisados revelam que a Prefeitura de Araguaína utilizou, de forma reiterada, o Código 52 (Estorno de Repasse Indevido ou a Maior) para retirar valores expressivos da conta do Fundeb. Cada operação acionava automaticamente o resgate de aplicações financeiras, interrompendo os rendimentos que, por lei, deveriam reforçar o orçamento da educação.
Somente em julho de 2025, as retiradas somaram R$ 14,8 milhões, com picos concentrados em poucos dias. Especialistas afirmam que a prática transforma a conta do Fundeb em uma “conta de passagem”, vedada pela Lei nº 14.113/2020, e expõe os recursos educacionais a riscos jurídicos e financeiros alheios à área.
🧾 Pagamentos Ocultos, Boletos Sem Identificação e Repasses a CPFs Agravam Suspeitas na Gestão do FUNDEB
Transparência | Dinheiro Público
Além das retiradas milionárias, a investigação identificou pagamentos de boletos de alto valor sem identificação clara do beneficiário e transferências diretas para CPFs, realizadas fora do fluxo regular da folha salarial da educação.
Em pelo menos um caso, o nome do beneficiário não consta nos registros públicos do município, o que contraria normas do FNDE que exigem identificação nominal de todos os destinatários dos recursos do Fundeb. Embora a Prefeitura alegue cumprimento de ordens judiciais, especialistas ressaltam que a ausência de transparência documental compromete o controle social e dificulta auditorias independentes.
⏰ Dezembro Revelador: Após 11 Meses de Estornos, Prefeitura Regulariza Pagamentos do FUNDEB às Vésperas da Prestação de Contas
Gestão Pública | Fiscalização
O dado mais contundente do levantamento está no timing da regularização. Depois de movimentar mais de R$ 119 milhões via estornos entre janeiro e novembro, a gestão municipal alterou abruptamente o procedimento em dezembro, passando a pagar salários e encargos diretamente pela conta do Fundeb.
O valor pago de forma regular no último mês — R$ 14,1 milhões — coincide com a média mensal retirada ao longo do ano por meio do Código 52. Para técnicos em controle externo, o padrão sugere uma tentativa de normalizar artificialmente o balanço anual, reduzindo riscos imediatos de rejeição das contas pelo Tribunal de Contas.
🏛️ Quem Autorizou? Cadeia de Decisão e Responsabilidades na Movimentação Milionária do FUNDEB
Bastidores do Poder | Fiscalização
A execução das operações financeiras exige atos deliberados em diferentes níveis da administração. A escolha do código bancário, segundo manuais de gestão pública, não ocorre automaticamente e demanda autorização técnica.
Especialistas apontam que:
- a Tesouraria executa,
- a Secretaria de Finanças valida,
- a Secretaria de Educação ordena,
- e o prefeito responde pela conformidade final.
Diante do volume envolvido e da repetição das operações, cresce a pressão para que os órgãos de controle apurem quem autorizou, quem executou e quem se beneficiou da quebra de rastreabilidade.
⚖️ O Que Está em Jogo: Desvio de Forma, Risco Legal e o Papel dos Órgãos de Controle
Embora não haja, até o momento, comprovação de desvio de finalidade, especialistas destacam que o desvio de forma pode, por si só, configurar irregularidade administrativa grave. A legislação do Fundeb foi desenhada justamente para impedir que os recursos circulem fora do radar da transparência.
Com documentos já tornados públicos, a expectativa agora se volta ao Tribunal de Contas do Estado, Ministério Público e órgãos federais, que deverão avaliar se as práticas descritas violam normas legais e constitucionais.
Enquanto isso, permanece a pergunta central que ecoa entre educadores, servidores e contribuintes:
se os recursos eram da educação, por que não permaneceram integralmente no caminho da educação durante todo o ano?
Por Geovane Oliveira, com informações do blog nortempauta.




