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quinta-feira, abril 30, 2026

Placar de 42 a 34 derruba Messias e enterra plano evangélico de ampliar espaço no Supremo

Quando o placar de 42 votos contra 34 foi anunciado no plenário do Senado Federal, na última quarta-feira (29), a oposição vibrou. Senadores bolsonaristas bateram palmas, fizeram selfies e comemoram como se tivessem ganho uma eleição. Para eles, tratava-se de uma derrota histórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: pela primeira vez em 132 anos, o Senado barrava uma indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal.

Mas, no meio da festa, um detalhe importante ficou perdido na poeira da disputa política: a rejeição de Jorge Messias não foi apenas uma derrota de Lula. Foi também, e de forma significativa, uma derrota do segmento evangélico que apostou suas fichas nessa indicação.

Uma escolha que tinha marca confessional

Quando Lula anunciou o nome de Jorge Messias para a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso, em novembro de 2025, a indicação carregava um recado claro ao eleitorado evangélico. O advogado-geral da União é membro da Igreja Batista Cristã de Brasília, declarou-se abertamente contrário ao aborto durante a sabatina e chegou a citar a Bíblia em suas respostas aos senadores. Descreveu-se como “servo de Deus” e defendeu que atuaria com “fé, família e trabalho” no tribunal.

O apoio de lideranças religiosas não tardou. O apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo, e o apóstolo César Augusto, da Igreja Fonte da Vida, manifestaram publicamente sua simpatia à indicação. O próprio ministro André Mendonça, único evangélico a ocupar uma cadeira no STF, foi o primeiro integrante da Corte a declarar apoio ao nome de Messias, numa demonstração de solidariedade entre correligionários.

Em outras palavras, havia um projeto de médio prazo em andamento: ter, pela primeira vez, dois evangelicos simultaneamente no Supremo Tribunal Federal.

A bancada dividida e o tiro pela culatra

O problema é que o campo evangélico, longe de ser monolítico, chegou à votação racha do meio a meio. E a divisão custou caro.

A vice-presidente da Frente Parlamentar Evangélica, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), não poupou palavras após a rejeição. “O resultado não diz respeito ao candidato”, afirmou, em vídeo. Para Damares, o Senado mandou um recado às instituições, não a Messias enquanto pessoa. Já Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da mesma bancada, foi mais direto e celebrou a derrota como “uma vitória do Brasil”.

A ironia não passou despercebida para quem acompanhou o processo de perto: os próprios líderes da bancada evangélica do Senado comemoraram a rejeição de um candidato que havia sido apontado, em parte, como representante desse mesmo segmento.

Enquanto isso, parlamentares que apoiavam Messias, como a senadora Eliziane Gama (PT-MA), ligada à Assembleia de Deus, ficaram em silêncio após o resultado.

O que os números revelam

Messias recebeu 34 votos favoráveis, 42 contrários e uma abstenção. Eram necessários no mínimo 41 votos para aprovação entre os 81 senadores. A margem parece pequena, mas o placar esconde uma derrota política maior: o Planalto chegou à votação afirmando ter votos suficientes. A oposição, porém, trabalhou para transformar a indicação em teste de força contra Lula, e o voto secreto ampliou a margem de incerteza, permitindo que senadores que publicamente evitavam se opor ao governo votassem contra sem exposição direta.

A derrota foi construída ao longo de cinco meses de desgaste. Lula anunciou sua escolha em novembro de 2025, mas a mensagem formal só chegou ao Senado em abril de 2026, expondo a dificuldade do governo em organizar apoio suficiente.

O que fica para os evangélicos

A questão que fica, portanto, é simples: quem celebrou a queda de Jorge Messias dentro do campo evangélico comemorou o quê, exatamente?

A resposta honesta é que comemorou a derrota de Lula. Mas, ao fazê-lo, abriu mão da possibilidade concreta de ter uma segunda voz evangélica no Supremo, num tribunal que, frequentemente, decide sobre pautas sensíveis para esse público, como liberdade religiosa, ensino nas escolas, questões de gênero e costumes.

Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e uma das figuras mais vocais entre os evangélicos, também se posicionou sobre o tema, mas o movimento não foi suficiente para unir o segmento em torno de uma posição única. Correio Braziliense

A lição política é dura: quando a identidade partidária fala mais alto do que o interesse religioso coletivo, até os aliados tornam-se adversários.

O que vem pela frente

Agora, Lula deve escolher outra pessoa ou manter a indicação. O novo indicado, ou o próprio Messias, precisará passar pelo mesmo rito no Senado. Dificilmente, porém, o governo voltará com o mesmo nome. A derrota foi pesada demais para uma segunda tentativa imediata.

O que está em jogo agora é quem ocupará a vaga deixada por Barroso — e se o próximo indicado terá ou não qualquer vínculo com o campo evangélico. As chances de uma segunda aposta nessa direção diminuíram consideravelmente.

Para os que comemoraram, a pergunta que fica no ar é: valeu a pena?

Por: Geovane Oliveira

 

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