Especialistas apontam que a narrativa de “desamparo” construída por Vicentinho Junior desconsidera décadas de investimentos federais em infraestrutura e não apresenta respostas técnicas para os gargalos reais do estado
O discurso de pre-campanha de Vicentinho Junior, proferido em Porto Nacional, repercutiu entre analistas políticos menos pelo que disse do que pelo que deliberadamente omitiu. Ao construir uma narrativa centrada em laços familiares, esforço pessoal e fidelidade partidária, o candidato deixou de lado temas que, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, são centrais para quem pretende governar um dos estados com maior contradição entre crescimento econômico e qualidade de vida da população.
A avaliação geral da fala, sob critérios de viabilidade programática, propostas econômicas e compreensão da realidade federativa, é de que o discurso cumpriu sua função intrapartidária — mobilizar aliados e reforçar vínculos afetivos —, mas pouco contribuiu para o debate público.
A infraestrutura que não foi mencionada
Um dos pontos mais criticados foi a ausência de qualquer referência às grandes obras de infraestrutura que transformaram a logística tocantinense nas últimas décadas. Falar em Porto Nacional sem mencionar a nova ponte sobre o Rio Tocantins — que desbloqueou o acesso à TO-050 e à Ferrovia Norte-Sul — foi considerado um erro de leitura do próprio território.
O mesmo silêncio se aplica à ponte de Xambioá, sobre o Rio Araguaia, na BR-153, que integrou o norte do Tocantins ao corredor de cargas do Matopiba e ao Pará, e à ponte de Estreito, na divisa com o Maranhão, que consolida o acesso estratégico ao Porto de Itaqui. Essas entregas, realizadas por governos anteriores e pelo governo federal, foram simplesmente ignoradas.
Para analistas, a omissão não é ingênua. Ela serve à construção de uma narrativa de abandono e desamparo que posiciona o candidato como o agente capaz de resgatar o estado — uma estratégia retórica que, contudo, colide com os fatos verificáveis.
“O caminho mais honesto não seria apagar o que já foi feito, mas propor a continuidade. As grandes pontes e rodovias federais são as artérias. O estado precisa pavimentar as veias — as rodovias estaduais que conectam assentamentos, pequenas propriedades e distritos industriais a esses eixos”, avalia um especialista em infraestrutura e desenvolvimento regional consultado pela reportagem.
O paradoxo silenciado: PIB em alta, renda estagnada
Dados do IBGE e do IPEA expõem uma contradição que nenhum candidato ao governo do Tocantins pode ignorar. O Produto Interno Bruto estadual cresce a taxas robustas, impulsionado pelo agronegócio de exportação — sobretudo soja e milho. No entanto, esse crescimento não se traduz em melhora da renda para a maior parte da população.
A informalidade atinge quase metade dos trabalhadores tocantinenses, e a renda média real permanece estagnada. Nos municípios menores, o funcionalismo público ainda é a principal fonte de renda formal, o que revela a fragilidade da base produtiva local.
O discurso de Vicentinho Junior ignorou esse dado estrutural. Ao agradecer pioneiros e aliados que cederam “patrimônio” para a campanha, o candidato comunicou-se com uma elite política e econômica, deixando de lado os trabalhadores das periferias de Palmas, Porto Nacional e Araguaína que convivem diariamente com o subemprego e a informalidade.
Economistas ouvidos pela reportagem apontam que a reversão desse quadro depende de medidas concretas: condicionar incentivos fiscais à instalação de agroindústrias no estado — em vez de premiar empresas que apenas exportam matéria-prima bruta —; financiar cooperativas de extrativismo do Cerrado, como as do babaçu, buriti e baru, para estruturar uma economia verde de base comunitária; e reformular a Agência de Fomento estadual para oferecer microcrédito a juros subsidiados para pequenos empreendedores e cooperativas nas periferias urbanas.
Saúde pública: “presença física” não é política
Outro ponto destacado pelos analistas foi a promessa de colocar o secretário de saúde para despachar de dentro do Hospital Geral de Palmas (HGP). A medida foi classificada como populismo cosmético que confunde visibilidade com eficiência de gestão.
O HGP colapsa por causa de um problema que começa muito antes de suas portas. O Tocantins possui 139 municípios altamente dispersos, além de receber pacientes de estados vizinhos. Quando o cidadão não encontra atendimento de média complexidade em cidades como Augustinópolis, Dianópolis, Guaraí ou Porto Nacional, ele é colocado em uma ambulância com destino a Palmas — e o hospital da capital acaba se tornando o único ponto de uma rede que deveria ter vários nós.
Especialistas em saúde coletiva indicam dois caminhos complementares para mudar esse cenário. O primeiro é estruturar os hospitais regionais existentes com leitos de UTI permanentes e centros cirúrgicos para procedimentos eletivos, fixando equipes médicas por meio de concursos regionalizados com gratificação de interiorização. O segundo é ampliar o repasse financeiro para que os municípios invistam nas Unidades Básicas de Saúde e nos Agentes Comunitários de Saúde — porque uma atenção primária eficiente reduz internações de urgência ao prevenir o agravamento de doenças crônicas como hipertensão e diabetes.
O debate que ainda não aconteceu
O Tocantins de 2026 não é o mesmo de 1988. A fase do isolamento geográfico foi superada. As pontes estão construídas, a ferrovia está em operação, os eixos logísticos foram estabelecidos. O desafio atual é outro: transformar infraestrutura física em prosperidade distribuída.
Para isso, analistas defendem dois eixos complementares. O primeiro é a gestão orientada por desempenho — metas claras, transparência de gastos e desburocratização para a atração de investimentos, em substituição à lógica do apadrinhamento político. O segundo é a inclusão econômica ativa — garantir que a riqueza gerada pelo agronegócio e pela logística seja redistribuída por meio de serviços públicos de qualidade, apoio à agricultura familiar e qualificação técnica da juventude tocantinense.
Nenhum desses eixos apareceu no discurso de Porto Nacional. O que ficou foi a genealogia partidária, o cansaço das viagens de campanha e os apelidos familiares — elementos que mobilizam aliados, mas não constroem programa de governo.
A campanha ainda tem tempo para mudar o tom. A população tocantinense, no entanto, já sinalizou nas urnas anteriores que quer menos afeto e mais resposta.
Por: Geovane Oliveira


